Ao se mudar para outro país, você se depara com outras culturas, outras mentalidades, outras leis e normas de convívio. E é você que tem que se adaptar e olhar novo país sob o “como as coisas funcionam aqui”. Você vai encontrar uma cultura que já existia antes do seu nascimento e vai continuar existindo depois da sua morte. Então, a sua opinião, se você sente confortável ou desconfortável, não interessa. Nenhuma cultura tem a obrigação de girar em torno do seu umbigo.
Do outro lado, também é frequente pessoas voltarem de intercâmbios, estágios e de experiências de trabalho no exterior, e não conseguindo mais se adaptar ao seu país de origem. Eu me incluo nessa lista e, por experiência própria, sei o quanto é extremamente angustiante o choque pós-retorno. Poucas pessoas vão te entender. Seus horizontes se expandem, você se acostuma a uma vida que não dá para ter no Brasil e, de repente, aquela experiência que era para ser transitória lhe abre um mundo de possibilidades incompatíveis com aquela velha rotina de antes.
Neste post, eu compartilho o que estudei a respeito deste assunto e o que compilei das minhas experiências vivendo em 6 países (Índia, Egito, Sérvia, Suíça, Ucrânia e África do Sul) e rodando meio mundo.

O que é o choque cultural?
Em termos práticos, o choque cultural é uma experiência que enfrentamos quando mudamos para um ambiente cultural diferente do nosso de origem. Ele se manifesta numa sensação de desorientação pessoal somada ao stress de se adaptar a novas regras sociais, costumes, valores, idioma e formas de comunicação.
Quais os sintomas do choque cultural?
Os sintomas do choque cultural variam de pessoa para pessoa, a depender de como cada um está acostumado a viver no estrangeiro e a lidar com pessoas de diferentes culturas. Alguns sintomas podem se manifestar em:
- Sentimentos de estranhamento e de não pertencer ao novo ambiente
- Ansiedade, frustrações e irritações nos mal-entendidos causados pelas diferenças culturais
- Solidão, tristeza e tédio com a saudade do país de origem
- Dificuldade de sono
- Perda de apetite diante de novos hábitos alimentares
- Dificuldade de manter o foco e a concentração pela sensação de confusão
- Sentimentos de insegurança sobre como agir e se expressar no cotidiano
- Dores de cabeça, dores de estômago e outros sintomas físicos
Fases do choque cultural
O processo de adaptação cultural costuma ocorrer em fases com duração e intensidade que podem variar de uma pessoa para outra. Neste processo, os seus ânimos variam conforme seus sentimentos de inadequação ou familiaridade com a cultura do novo país, tal qual com o tempo de permanência.
Cada fase do choque cultural influencia a sua percepção de cada experiência sua e do país onde se encontra. Uma coisa é ir a turismo, outra é viver por um tempo suficiente para conhecer os prós e os contras que todo país tem. Então, vamos com a descrição de cada uma destas fases.

Lua de Mel
É a fase da euforia, tudo é fascinante e você de imediato se mostra curioso com as novidades do novo país. Nesta fase, costuma ser a típica visão de turista, o lado bom se destaca nos primeiros dias.
Todavia, mesmo numa viagem curta, um simples gesto que nos é normal pode ser obsceno no país onde está; ou a inobservância de certos hábitos locais pode causar estranheza, ofensa ou render gafes. Depois da primeira gafe, vem a ansiedade.
Crise ou Hostilidade
É a fase do choque cultural propriamente dito, quando você começa a enfrentar dificuldades e desconfortos após a euforia inicial, com sentimentos de frustrações, irritações, tédio e até ofensas desapontam. É normal perder o controle emocional nesta fase e até querer se isolar ao sentir desgaste emocional. É quando nós nos pegamos perguntando: O que estou fazendo aqui? E também do criticismo exagerado à outra cultura e da idealização do seu modo de vida.
Ajuste ou Reorientação
Passados os primeiros sustos, você começa a entender melhor as novas regras sociais, os costumes e as normas do novo país. É a fase que costuma ser o tudo ou nada, aquele momento em que você decide se “aceita o desafio ou vai embora”. Você se acostuma ao que lhe parecia estranho, e vai aos poucos se soltando. Enfim, é a fase em que começa a aceitar a cultura local. Pois é, “eles são assim mesmo”. São apenas diferentes maneiras de perceber o mundo e de levar a vida.
Adaptação
Depois de entender a cultural local, você se adapta e se integra ao novo país gradualmente. Nesta fase, já se sente como um local, após aceitar e abraçar as diferenças culturais que no início causavam desconforto. A esta altura do campeonato, já esquece que é um estrangeiro, se comporta como um membro daquela sociedade onde passa a viver. É a fase em que vem à tona o sentimento de pertencimento.
Retorno à Casa
Você volta ao seu país de origem e pode se sentir desajustado no seu velho ambiente. Há uma sensação de não pertencer mais ao seu local de origem e é normal a frustração de não ser entendido por pessoas que nunca passaram por tais experiências.

Como lidar com o choque cultural?
Mais fácil falar que fazer, eu também tive momentos de frustrações, raiva e angústia. Não há receita única para todos, é um processo que exige mente aberta, paciência e flexibilidade para superar as diferenças culturais.
Antes de viajar
- Informe-se sobre a cultura do país aonde você vai. Uma interessante é o site CultureMee. Também se informe sobre as leis, as tradições, os costumes, os valores e a história local.
- Estude os modelos de culture map e metodologias que servem de guia prático em como interagir com outras culturas no trabalho, na vida social e na vida pessoal. Eu me oriento pelos trabalhos dos autores Geert Hofstede e Erin Meyer.
- Aprenda o idioma do país, sobretudo em longa permanência. Falar outras língua abre nossa mente a entender como pensa e se expressa a população local e suas nuances peculiares.
Durante a viagem
- Seja curioso e observe o comportamento das pessoas, as interações pessoais, como se expressam e as nuances da cultura local. Caso não entender algo, faça perguntas.
- Prepare-se para o diferente! Nem tudo se resume a certo x errado em meio a diferentes formas de ver o mundo e de fazer as coisas de jeitos com que não estamos acostumados.
- Adapte-se sem perder as raízes: encontre um equilíbrio entre a cultura do país de destino e a sua própria cultura. Você pode se adaptar sem perder a sua essência.
Construa conexões no novo país
- Participe de atividades locais, eventos, festas, celebrações, aulas de idioma e dança, aprenda a culinária local e outras atividades que lhe ajude a se integrar na outra cultura.
- Faça amizades com locais e com estrangeiros que vivem no seu lugar de destino. Ambos os casos podem ajudar a construir um sistema de apoio e na adaptação. Caso for difícil fazer amizade com locais, o Internations é uma excelente alternativa, como fiz na Suíça e na África do Sul.
- Compartilhe a sua cultura para enriquecer a experiência de locais e outros estrangeiros convivendo com você.
Cuide de si mesmo na jornada
- Tenha paciência na adaptação! É um processo longo, você vai ter dias bons e dias ruins. Reconheça o desafio e a maravilha de navegar numa outra cultura.
- Mantenha contato com os seus próximos no seu país de origem, pois é de grande ajuda para o apoio emocional e reconforto quando necessário.
- Reserve um tempo para si, para atividades de relaxamento e hobbies que ajudem a se recuperar do desgaste emocional com o choque de culturas.
- Busque ajuda se precisar quando sentir tristeza, ansiedade e frustrações.
Observe as oportunidades de crescimento
- Não encare o choque cultural como um problema. Trate-o como uma parte natural do aprendizado e do seu crescimento pessoal, como uma oportunidade para expandir os seus horizontes.
- Aprenda com os erros e trate-os como oportunidades para entender melhor as diferenças culturais. Mantenha o bom-humor diante dos mal-entendidos, gafes e conflitos que fazem parte do processo de adaptação numa outra cultura.

E o choque cultural reverso?
O choque cultural reverso é a fase que muitos emigrados enfrentam ao retornar ao seu país de origem após um período vivendo no exterior. Mesmo experiências curtas podem ocasionar um choque cultural reverso em caso de experiências intensas; 2 semanas num país como a Índia vão consumir mais adrenalina que 2 anos de Suíça.
Ao voltar para o país de origem, o que era familiar parece estranho. Você pode sentir que mudou após suas vivências no estrangeiro, mas o seu velho ambiente e as pessoas ao seu redor continuam como no passado.
Como lidar com o choque cultural reverso?
Reconheça seus sentimentos. É normal se sentir perdido, frustrado, nostálgico, desajustado como um peixe fora d´água. Não se culpe por carregar estes sentimentos. Aceitar o choque reverso é o primeiro passo para superá-lo.
Esteja preparado para mudanças. Mesmo no seu país de origem e na cidade onde vive há anos, as coisas podem ter mudado enquanto você esteve fora. E você também mudou! Esteja preparado para ver seu velho ambiente com “novos olhos” e que nem sempre nossas expectativas correspondem à realidade.
Gerencie as expectativas. Seus familiares e amigos podem não entender as suas experiências de choque cultural e o quanto você mudou durante a jornada. Não espere que eles se interessem por suas aventuras e que tudo volte a ser como antes. O lugar que lhe era familiar pode virar um lugar estranho e fora das suas atuais expectativas.
Mantenha contato com familiares, amigos e procure conhecer pessoas que viveram experiências semelhantes ao estrangeiro.
Compartilhe suas experiências com pessoas interessadas. Tente contextualizar suas histórias para que sejam compreensíveis a quem não viveu a mesma realidade no estrangeiro. Procure compartilhar fotos, vídeos, culinária, aprendizados e conteúdos que reflitam suas experiências. Eis um dos motivos pelos quais eu comecei a publicar conteúdos de viagem online.
Leve o olhar de turista para a sua cidade e os locais por onde passar a fim de enxergar com novas perspectivas. Visite lugares novos, se abra a novas atividades e a redescobrir do que você mais gosta na sua terra.
Planeje seu futuro e extraia aprendizados das experiências que lhe transformaram. Pense em como você pode aplicar as habilidade adquiridas no seu país e nunca se acomode. Não perca tempo em definir seus próximos objetivos! Caso a vontade de sair do país seja maior que permanecer, é necessário elaborar estratégias para um processo migratório.
Mantenha uma rotina saudável com exercícios alimentação equilibrada e busque apoio profissional caso necessário, já que o choque cultural reverso também é desgastante.

Lembre-se de que cada pessoa reage de modo diferente a choques culturais, então, não se cobre tanto e se permita viver a aventura da adaptação.
Uma mudança para o exterior é literalmente uma reprogramação do seu cotidiano, independente do país ou da cidade aonde você vai parar. O processo de se adaptar a uma outra cultura já é estressante e, quando subestimamos o desafio ou recusamos a aceitá-lo, simplesmente batemos a cara no muro.
Como bem descreve um trecho de uma carta de Sêneca a seu amigo Lucílio: “Uma viagem jamais emitiu um julgamento ou desfez um erro”. O mesmo vale para emigrar. Na mesma carta de Sêneca, fica para reflexão o seguinte trecho:
“Imagina que estejas em Atenas, em Rodes. Elege simplesmente outra cidade qualquer. De que maneira te atingirão os costumes daquele lugar? Tu carregas os teus.“
Você já teve alguma experiência de choque cultural que gostaria de compartilhar?
Originally posted 2021-02-28 21:34:22.


